Como um complemento ao post anterior, com o prólogo. aqui vai o primeiro capítulo de meu livro.
– CAPÍTULO UM –
A Estrada das Araucárias
Coração do Sul, agosto de 2007.
PASSARAM-SE 25 ANOS DESDE A MORTE DE DNA. LUIZA, MAS ATÉ HOJE OS moradores da pequena cidade de Coração do Sul se negam a aproximar de sua casa. Segundo contam algumas das muitas versões sobre a vida da velha, ela teria vivido algo em torno de 600 anos. Mentira, claro. Isso era tão mentira que ninguém levava "tão" a sério.
A casa aonde Luiza vivera ficava no número 6, da Estrada das Araucárias. Era um sobrado, de arquitetura extremamente rústica. Fora um dia bela e respeitável, e disso, ninguém tinha dúvidas. Todavia, hoje não passava de um casarão sujo, feio e de aspecto macabro.
Mas no que se refere à história de Luiza Moreira, quase ninguém as levava a sério, pois cada um costumava recitar a sua própria versão... Para falar a verdade, não era exatamente assim... Não mesmo.
A verdade é que mentiam tanto, que com o tempo passaram a acreditar no que diziam. Passaram até a temer a simples menção no nome da velha. Nada muito exagerado, do tipo chamá-la de "você-sabe-quem", afinal é de uma velha(por muitos chamada de Coróca) que estamos falando... Mas ainda assim, surgia um clima um tanto quanto sugestivo. Era um belo passatempo fantasiar a vida dela.
Muitas pessoas acreditavam que Luiza realmente fosse uma feiticeira, talvez porque se recusava a participar de quaisquer eventos na cidade, e raramente era vista andando fora das dependências de seu próprio domicílio. Com toda certeza era uma senhora tímida, mas que graça havia nessa hipótese? Nenhuma!
Alguns anos após sua morte, a propriedade de número 6, na Estrada das Araucárias, aonde se localizava a casa de Luiza, passou por diversas tentativas de venda, mas ninguém conseguia se aproximar da casa. Não se sabe ao certo o porquê. Se a culpa seria da aparência bizarra da casa ou as lendas que a cercava. O que se sabe é que no final das contas, as pessoas acabavam pensando duas, talvez três vezes.
Desde a morte dela, muitas pessoas tentaram invadir a casa. Uns para morar, outros por curiosidade, outros para roubar algo, alguns góticos que tentavam entrar para realizar seus coitos, e outros tantos por diversas outras razões. Mas ninguém nunca entrara ali. Obviamente, muitos já chegaram até lá. Ficaram diante da casa, mas nunca ninguém teve a ousadia de invadi-la. Talvez porque a visão não fosse das melhores, ou porque sentiam algo que nunca sentiram em suas vidas. Uma sensação terrível que ia muito além da carne e dos ossos.
Muitos tiveram sua oportunidade de confirmar ou negar suas teorias sobre Luiza Moreira, mas ninguém que esteve lá, diante da casa, o fez. Mas as gerações mudam...
*
O sono estava tão bom que Felipe realmente não fazia questão de se levantar. A chuva caía no telhado e cantava no asfalto frio da rua. Sua cama estava bem aquecida, e seu quarto, escuro... Hum... Realmente não seria um bom negócio.
- Filho, - murmurou Dna. Isabel, sua mãe – acorde. Ou perderá o ônibus da excursão...
"A excursão..." – viajou ele em seus pensamentos – "A EXCURSÃO!".
Quinze minutos depois, Felipe estava pronto, sentado na mesa da cozinha tomando seu chimarrão. Essa excursão marcaria a volta às aulas do segundo semestre. Era uma sexta-feira, e já na próxima segunda-feira as aulas voltariam ao normal.
Acordar cedo, correndo. Essa era a rotina matinal de grande parte das famílias da cidade de Coração do Sul. Logo ao amanhecer, o pai de Felipe se arrumava, comia algo apressado e corria para o ônibus. Saía antes que Felipe e Isabel acordassem. Gerenciava um frigorífico em uma cidade vizinha. Depois, Felipe acordava, sempre resmungando, e tomava seu banho, comia algo, e corria para a escola (que ficava a pouco mais de um quarteirão de sua casa). Depois disso, Isabel, com a casa só para ela, colocava suas fitas de música sertaneja em alto e bom som, e começava a fazer sua faxina, até que chegasse a hora de se arrumar para trabalhar. Era chefe de cozinha em um grande restaurante numa cidade vizinha. As demais famílias da cidade não fugiam muito dessa regra.
Coração do Sul era uma cidade muito pequena. Pouco mais de oitocentos habitantes. Ficava em uma região do Rio Grande do Sul cujo solo era cheio de imensos calombos. Era em um desses que a cidade em si de localizava. Formava um círculo, alto, e absolutamente magnífico. Era cercada por florestas fechadas, e estradas estreitas de duas vias. Havia também em sua fronteira um rio, imenso. O Rio Cututu.
Mas voltemo-nos à família de Felipe. Sr. Ricardo, pai de Felipe, branco, cabelos castanho-claros. Viera de uma família modesta do interior do estado de Minas Gerais, embora todos morassem
O colégio Prof° Dr. Alberto Eriberto Roberto estava muito agitado naquela manhã. Os alunos iriam conhecer o Museu de Arte-Sacra da cidade de Cruz Marrom, vizinha de Coração do Sul. Claro que o que os motivava não eram os presépios que iriam conhecer, eles finalmente poderiam conversar a vontade, sem nenhum professor desagradável para incomodar.
Felipe entrou no ônibus e se sentou ao lado de Fernando, seu melhor amigo. Fernando também era descendente de alemães, tinha os olhos azuis bem vivos, mas seus cabelos eram quase ébano, brilhantes, e um pouco enrolados.
Coração do Sul era infestada de paulistas, porém seu povo carregava no sotaque gaúcho, que por vezes soava melodioso, embora usassem muitos dos dialetos da metrópole.
- Felipe, tentei ligar pra ti ontem, mas não estavas
- Fui uma vez, mas...
- Oi Felipe... – disse ela, passando pelo corredor, indo para o fundo. – Fernando! – ela acenou com a cabeça.
- Oi! – Felipe respondeu, corando. E aproximou-se mais de Fernando. - A mãe dela é muito chata. Acho que precisa de um marido novo, sabe?
- Sei, ou aderir ao Sistema Aleatório de Namorados... Vi o anúncio hoje no jornal. – riu Fernando. Felipe riu, e então pararam ao se deparar com Cezar e Carlos, que viram do banco da frente para falar com eles. Pareciam sérios. Carlos era um menino negro de cabelos raspados, morava na cidade de Helena do Sul, mas estudava em Coração do Sul. Para facilitar, dormia constantemente na casa de sua avó, que morava a alguns quarteirões da escola, e Cezar era um mestiço, nascido no Japão,
- Meu pai me mostorou um caldeiron que ere roubou da casa do boruxa.
Os três se calaram.
- Ere me contou que entorou lá quando êra beeeem jovi... Antes de ir Japon. Disse cheia velas a casa.
- Ele foi depois que ela morreu? – perguntou Felipe.
- Sim. Ere me contou que velas nunca se apagam...
- Nunca? – assustou-se Felipe.
- Nunca.
- Minha mãe me disse que ganhou um chocolate da bruxa. – comentou Fernando, parecendo um pouco indiferente com a conversa.
- Nossa, tu nunca havia me dito isso – comentou Felipe – Minha mãe me disse que sempre ia visitar a velha quando ainda era viva. Disse que quando ela era menina, ela adorava enfeitar os cabelos com flores. Ela me disse que as flores mais bonitas do mundo estavam no jardim do sobrado da velha. Um dia ela resolveu pedir uma flor para a bruxa. Depois disso começou a ir sempre lá visitar a Dna. Luiza. O dia em que o pai dela morreu, ela foi lá e sem que pedisse, a bruxa deu uma flor para minha mãe. Disse que aquela flor era muito especial. Minha mãe ficou encantada.
- Minha mãe me disse que a Luiza era bem legal com ela. Que já ganhou quando criança vários presentes dela. Também me falou das flores do jardim da casa da Luiza. – comentou Fernando.
- Puxa. No final das conta, a véria não era tão ruim, afinal. – disse Cezar – Mas eu já ouvi cada coisa terível sobere era... O pai do Eduardo, aquere menino do oitava sêrie, me disse que era dava carne de crianças para as cabras dela...
- Velha asquerosa! – vociferou Carlos – Meu bisavô, que Deus o tenha, disse que quando ele era menino, isso há uns 90 anos, ele a viu invocando Satanás no meio da Floresta, uma vez. Ele ainda me contou que o dito cujo apareceu e ficou horas conversando com ela...
- E daí? De repente ele só queria saber quantos ovos se usa no pão-de-ló. – riu Fernando.
- É, ou só queria discutir o 2001- Odisséia no Espaço com ela. – completou Felipe.
Riram, mas logo caíram no silêncio, reflexivos.
- A gente conhece essas histórias de quando era era viva... Mas e depois disso? – argumentou Cezar, como quem pensa alto. – Porque, segundo reza a renda, depois que era moreu, que começarom a farar sobre as assombrações da foresta.
- Isso é verdade. Foi depois que ela morreu que dizem que as coisas estranhas começaram a acontecer na mata. – Fernando murmurou, coçando alguns de seus cachos. – E não é só isso. Tem aquelas histórias das vítimas de "morte morrida".
- É! – exclamou Carlos. – O meu tio, o Nego-preto, me disse que não levava muito a sério essa coisa de assombração não. Disse que acampou na floresta que rodeia a casa dela. Ele contou que foi perseguido floresta adentro por uma mistura de vapor e chamas. Chamas negras, que brilhavam ao redor de uma neblina que parecia sair do próprio corpo. Ouvia gritos, como se pessoas fossem torturadas. Eu nunca levei muito a sério não. Acho que deve ser embalo. Meu avô que adorava inventar histórias assim.
- Não importa. Teve gente que morreu, não teve? – indagou Felipe. – Não morreram pessoas na floresta? E as aves da floresta vêem toda noite para a cidade. Dizem que os animais são sensíveis. Ninguém gosta de falar muito sobre desses assuntos. Tanto que dizem que a casa dela foi cercada. Falando nisso, onde fica a casa dela?
- Não sei nem se realmente existe
O som áspero de alguém limpando a garganta ecoou pelo ônibus e todos se calaram. A Profª Geiva, diretora do colégio, era baixa e gordinha. Tinha pouco pescoço, e uma expressão bondosa.
"Crianças... Antes de o retorno das aulas, antes de iniciarmos a segunda etapa de nosso ano letivo, programamos essa viajem para Cruz Marrom. O que verão ali não é nem um pouco importante para as matérias que estão estudando, mas terão de entregar uma redação contando suas impressões sobre o passeio para suas professoras de português até o final do bimestre. Também haverá um trabalho de Educação Artística. Mas mais sobre isso depois. Sem cabeças para fora das janelas, brigas ou grosserias dentro do ônibus, por favor, ou serei obrigada a deixa-los na estrada!".
A diretora começou a andar pelo corredor devagar, olhando atentamente para ver se estavam todos em ordem.
- Erm... Professora? – murmurou Fernando quando a professora passou por eles.
- Sim? – perguntou ela.
- Só por curiosidade. A senhora sabe onde fica a casa de Luiza Moreira.
Ela ergueu as sobrancelhas, desconfiada, e os encarou.
- Porque tu me perguntas?
- Bah, só por curiosidade...
- Hum... – resmungou ela, como se desenterrasse uma história da memória. – Olha... Saber assim "Nossa, como ela sabe", eu não sei não, não sei dizer para ti. Mas olha, até aonde eu sei fica na parte nordeste, ou leste da cidade, coisa assim. Mais pra perto do Rio Cututu, acho eu, não sei. Numa área mais isolada, aonde só tem sítios e coisas assim. – explicou ela com uma voz completamente incerta. - Porque a curiosidade?
- Nenhuma razão em especial, - murmurou a voz fanha de Cezar – só curiosidade mesmo.
A professora Geiva sorriu.
- Japonesinho bonitinho... – disse ela, que deu as costas e continuou caminhando entre as poltronas do ônibus para vigiar os alunos.
A viajem a cidade de Cruz Marrom não fora rápida, mas também não foi tão longa. Da janela, via-se um campo de girassóis sem fim. Também passaram por belos pastos, e até viram alguns avestruzes. Um sol imenso contornava de vermelho as silhuetas das nuvens no céu.
O ônibus reduziu a velocidade. Já estavam na cidade.
Desceram já na porta do museu, e logo foram recepcionados por alguns monges. Logo subiram um lance de escadas e entraram no museu (que se localizava exatamente entre um mosteiro e uma igreja).
Havia um grande saguão aonde os presépios se encontravam, e uma escadaria de pedra bem no centro, que levava, obviamente, a um novo andar.
O grupo começou olhando um presépio todo feito em origami, com papéis coloridos. Um frei bem gordo parecia muito alegre em mostrar os presépios.
"Este presépio é todo feito
- Que presepada! – murmurou Felipe aos amigos.
- Hehehehe, é mesmo... Aonde será que fica o banheiro? – perguntou Fernando.
- Xi, não sei – falou Carlos, parecendo interessado no presépio.
- É por aqui – disse um jovem e bonito padre com ar bondoso. Era um pouco alto. Tinha cabelos louro-acinzentados, e um olhar extremamente tenro.
Fernando acompanhou o padre. Por alguma razão que Fernando desconhecia, o padre não parava de acariciar as costas e os ombros do garoto.
- É aqui.
- Ta, obrigado.
E esperou o padre lhe dar as costas. Mas isso não aconteceu.
- Obrigado Sr...?
- Pedro, padre Pedro, ou só Pepê...
- Ah, Padre Pedro. Muito obrigado, não precisa se incomodar mais comigo.
- Ora, meu querido, tu não és nenhum incomodo. – respondeu ele, bondoso.
- Sim, mas já vi o banheiro. Pode voltar aos seus afazeres.
- Ah, sim, claro, desculpe, querido. – e dá as costas.
Fernando entrou no banheiro, e, sem pressa, aliviou-se. Lavou as mãos com calma, olhou no espelho de seus dentes estavam limpos, lavou o rosto mais uma vez, e abriu a porta bruscamente, e, notou que o padre se levantara bruscamente, como se estivesse agachado. Ele olhou com horror para o homem, que corou e virou as costas. Fernando fechou a porta do banheiro e o olhou por fora. Só então notara que não havia chave. Será que o padre o espiara pelo buraco da fechadura? O que quer que tivesse acontecido, ele preferiu não ficar sozinho, e correu de volta até seus amigos.
Felipe, Carlos e Cezar pareceram preocupados ao verem os olhos assustados de Fernando. O menino contou aos amigos o que acontecera.
- Cachoro safado... – resmungou Cezar olhando para o homem.
Todas as vezes que um deles olhava em direção ao padre, ele sorria meio sem jeito.
"Este presépio ganhou dois prêmios
Ficaram mais alguns minutos olhando para os demais presépios.
- Ah! – exclamou o monge que guiava o grupo. - Vamos subir ao outro andar. Creio ficarão encantados com as imagens que temos lá. Algumas têm mais de duzentos anos.
- FILA. Todos em fila, por favor... – disse a Professora Geiva. Os alunos formaram uma fila e subiram atrás do monge e da professora. Os passos deles faziam eco conforme subiam as escadas. Tudo era muito vazio. Quando chegaram no segundo andar, realmente ficaram encantados. Havia pouca luz natural ali. Era um bocado escuro, iluminado apenas por umas arandelas. Havia muitos pedestais. Em cima deles, imagens antiqüíssimas (e belíssimas) de alguns santos, que eram protegidos por redomas de vidro.
- Ah, que bela oportunidade... – começou o monge guia – para mostrar aos jovens coraçulanos. Vejam, olhem essa imagem, não é fabulosa?
E apontou com a palma da mão para uma imensa imagem de São Bento.
- São Bento. O padroeiro de Coração do Sul. Com olhos de vidro. Impressionante, não?
Toda a turma se aproximou. Pareceram todos muito interessados. A estátua tinha um olhar vivo e havia em sua capa preta adornos
"Essa imagem foi feita na... Ah. Para que entendam melhor, vou contar um pouco do que sei sobre a história da sua cidade. Há quase quatrocentos anos, um grupo de europeus vieram para o Brasil refugiados. Eram, na sua maioria protestantes fugindo da inquisição. Alguns eram judeus, também. Na sua maioria, porque entre eles havia um monge beneditino que simpatizava com os demais. Ele montou uma pequena capela. Exatamente onde fica o altar da igreja da sua cidade. A cruz de madeira que está ali foi feita por ele. Frances Robespierre. Era de família francesa, mas nasceu na Espanha. Bem, supõe-se que...".
"Mas enfim, há cerca de cinco anos foi iniciado um projeto para a construção de uma catedral. Inviável, claro, pelo tamanho e pelas condições econômicas da cidade. Com isso, foi decidido apenas que a igreja deveria ser reformada, restaurada. Afinal, é a igreja mais velha de todo o sul do país. Mesmo assim isso chegou até o papa anterior, que sem grandes explicações resolveu doar essa imagem para a igreja. Ela está aqui,
Enquanto toda a turma ouvia atenta ao monge contando histórias sobre santa Teresa, Felipe pareceu estar mais entretido em outra coisa. No fundo do hall onde estavam as imagens de santos, havia uma porta de madeira de lei. Uma porta trancada com três cadeados e uma chave tetra. Formando um largo círculo ao redor da porta, havia uma espécie de cerca de pequenas correntes e uma pequena placa de madeira talhada e envernizada com a palavra "RESTRITO".
"... Verdadeiras ou não, estas são histórias que valem a pena o conhecimento...".
- Senhor? O que tem por detrás daquela porta? – Felipe perguntou. Todos os alunos, e até mesmo a Profª Geiva pareceu interessada.
- Alí estão guardadas coisas mais importantes. Não exatamente valiosas, mas coisas que necessitam de maior cuidado. Coisas que não são importantes para qualquer um de nós.
- Mas o senhor sabe de que se trata? – perguntou Rosinha, interessada.
- O que sei é o que disse. – respondeu ele com uma expressão de ligeiro pesar – só vi o abade e o padre da igreja ao lado entrarem ali, uma vez.
Depois de ver os presépios e os santos, os alunos foram para o mosteiro, lanchar. Rodearam a imensa mesa do refeitório, e o abade (alto, corpulento, careca, com cabelos compridos e barba por fazer) apareceu.
- Depois desta divertidíssima exposição – ironizou ele – Nada melhor do que comer alguma coisa. E deixamos a parte mais emocionante da excursão para o final. Depois do almoço iremos conhecer nossas árvores e hortaliças. Ah, o nosso pomar. Poderão fazer coisas emocionantes como roubar goiaba e manchar a roupa em uma jabuticabeira.
- Hum, eu gosto de fazer isso... – resmungou Carlos.
Alguns monges trouxeram a comida e deixou numa grande mesa encostada na parede. Os alunos foram se servindo (feijoada, com couve, farofa e pururuca) e logo foram se sentando nas duas grandes mesas que ocupavam quase todo o refeitório.
Já almoçando (e cochichando).
- Ele pode ter me visto mijando, ora essa... – reclamou Fernando.
- Hahahaha, então ele não deve ter visto nada demais! - riu Carlos.
- Tu dizes porque és preto! – resmungou Fernando.
- Ah, mas essa história de que preto tem grandão é papo furado... – desdenhou Felipe.
- Quer valer quanto? – ameaçou Carlos.
- Nada, obviamente. Detesto perdeu meu tempo. E dinheiro que vem fácil, vai fácil! – zombou Felipe.
- Vocês pegarom do môio vinagrêto? – perguntou Cezar, tentando mudar de assunto, e Carlos olhou para ele.
- É, mas o Cezar não foge da maldição dos japoneses, hahahahaha – e todos riram baixinho.
- Tu já viste para saber, né, Vera Verão? – riu Fernando.
Carlos comprimiu os olhos encarando Fernando.
- Agora que eu reparei que o Fernando tem uma deficiência... – murmurou Carlos. Fernando o encarou esperando pelo pior. – Ele nasceu com os pêlos do saco na cabeça.
Felipe e Cezar riram.
- Pelo menos eu os tenho em algum lugar! – retrucou Fernando. - E, não me encham. Isso é um mosteiro, seus imbecis, não uma aula da Edileusa. – retrucou Fernando.
- Eu gosto dos cachinhos dele! – exclamou Rosa, que pareceu ouvir toda a conversa.
Eles arregalaram os olhos, chocados. Ela corou ligeiramente, e fez um gesto para outra mesa, aonde os monges, o abade e o padre almoçavam juntos.
- E eu acho que não sou a única, sabem... – ela disse, rindo.
Eles olharam rápido e viram o padre Pedro, olhando para eles.
Depois do almoço, puderam colher algumas frutas nos jardins internos no mosteiro. Ficaram cerca de duas horas lá, quando voltaram para o ônibus. Felipe, Fernando, Carlos e Cezar eram os últimos da fila. Foi então que o padre Pedro apareceu para se despedir.
- Erm... Se tu precisares de um amigo para brincar ou... Conversar... – disse ele com uma expressão bondosa. - é só ligar aqui e procurar por mim. – sorriu ele. – inclusive os outros, são todos bem vindos aqui.
- Creio que sim. – respondeu Carlos, ríspido.
- Negrinho bonitinho... – disse o padre, com uma expressão doce no olhar. Dá uma piscadela em direção a Fernando e então se retira.
- Esse homem me assusta! – exclamou Cezar.
A viajem de volta fora ainda mais rápida que a de ida. Teriam a tarde toda livre, e dois trabalhos para começar. Uma redação sobre os presépios e uma pintura com guache, também sobre eles, mas para Educação Artística, tudo para o reinicio das aulas. Tomariam o café da tarde na casa de Cezar, como já haviam combinado.
- A mamãe já comeu, viu, meu suchi. Podem comer a vontade, podem comer o quanto quiserem. Sirvam-se, meninos. Comprei esse pão de mandioquinha. É ótimo. – sorriu Dna. Nilce, gentil como sempre. Dna Nilce era a mãe de Cezar.
- Cezar, depois mostre o caldeirão que seu pai roubou da casa da bruxa para a gente. – comentou Carlos enquanto levava o garfo em direção à boca.
- Caldeirão da casa da bruxa? Que raio de história é essa, suchizinho? – perguntou Dna. Nilce parecendo interessada.
- Erm... Que caldeiron? – falou Cezar mais para dentro do que para fora, com um sorriso amarelo. Os meninos serraram os olhos, lançando faíscas na direção de Cezar. Dna. Nilce percebera que seu filho andara inventando coisas e preferiu deixa-lo se virar sozinho. Saiu da cozinha.
- Seu japonesinho cara-de-pau! – vociferou Fernando.
- É. Tu pensas que somos trouxas. – Carlos falou lentamente. – Ninguém que presta mente para os amigos.
- Merecia um direitão na cara. – ameaçou Fernando.
- Ou pior, - Felipe lançou a Cezar um sorriso maníaco – merece uma noite cheia de amor e carinho com o padre do Fernando.
- É, hahahahaha, o Pepê... – riu Carlos
- Isso não tem a menor graça! – brigou Fernando. – Ele precisa ser castigado para não mentir mais para a gente.
- Ah, mas foi só uma mentirinha de nada. – choramingou Cezar.
- Mentir para os amigos nunca é irrelevante. – diz Carlos cheio de si.
- Só há um castigo à altura do que essa gueixa fez... – murmurou Felipe.
Lá estavam eles na praça principal diante de uma grande árvore de juá.
- Pessoal, isso não é exatamente necessário... – gemeu Cezar.
- É sim, suchizinho. É isso, ou tu vai ter de sair na rua com a roupa de gueixa da sua mãe... Vamos, andando. – falou Felipe, autoritário.
- Eu pago soruvete para nós quatro! – ele tenta.
- Cezar, não seja um covarde! – empurra Fernando.
Cezar caminha até a Quitanda da Nhá Gorducha, de onde sai uma senhora de idade, ligeiramente gorda e bem enrugada.
- Tu... Tudo bem dona Nina? – diz Cezar mais para dentro do que para fora.
A velha o encara com uma expressão completamente desconfiada. E murmura um "tudo" completamente incrédulo. Cezar olha para os amigos, que o fazem sinal para seguir em frente.
- A senhora está tão bonita hoje.
A velha serra os olhos e olha para os lados. Vê os garotos, que rapidamente disfarçam fingindo que conversam entre si. Ergue uma sobrancelha e volta a olhar para Cezar.
- Quer que eu a ajude com as sacóras?
- Eu moro a meio quarteirão daqui, fedelho... – disse ela com uma voz quase masculina.
- Ora, mas eu sou jovem e tenho os braços forutes.
Ela simula uma tosse de desdém, e lhe passa as sacolas com frutas e batatas.
Cezar olha para os amigos, que caem na gargalhada. Ela volta a andar, e Cezar a acompanha.
- A senhora fez luzes?
- Não. – vociferou dona Nina. - Eu não tinjo os cabelos nos últimos dois meses...
Cezar sorriu desajeitado.
- Ah, desculpe. Não foi minha... Minha intenção ofende-la. Mas ainda sem tingir, seus cabelos estão muito bonitos, parecem bem sedosos e...
- Olha aqui moleque, se tu estás a me botar agouro, que volte tudo pra ti. Dez vezes mais.
- Puxa, dona Nina... – murmurou Cezar.
- Chegamos. Devolva as sacolas.
Ele devolveu, e ela abriu a cerquinha de sua casa. E começou a andar quando Cezar a segurou pelo pulso.
- Espere.
- O que é que é agora? Vais elogiar o tom cinza da catarata em meus olhos?
- Não vou ganhar um beijinho? – pergunta ele, com uma expressão se extremo sacrifício. Ele estufa uma bochecha. Ela parece pensar um milhão de vezes, mas o beija.
- Agora suma daqui! – ela diz, e vira-se de costas. Cezar sai correndo de encontro aos amigos, que estavam quase deitados no chão, rindo.
- Isso não tem a menor graça! – choramingou Cezar.
- Claro que tem! – riu Carlos, com a mão no abdome - Tu fostes melhor que o Felipe na semana passada, que teve que declarar o amor que sentia por ela.
"Quem foi o castigado da vez?", perguntou uma voz masculina gravíssima saída de trás deles. Eles se viraram assustados.
- Ah, tio, o que fazer fora da delegacia hora dessas? – perguntou Carlos.
- Resolvi sair mais cedo. Não acontece nada nesse fim de mundo. – respondeu o Nego-preto.
Nego-preto era o tio de Carlos. Era o delegado da cidade. Também se chamava Carlos, mas ninguém o conhecia dessa forma. Era um homem com mais de um metro e noventa, negro, obviamente, e com cabelo rastafari e voz de narrador de trailer de filmes de ação. Apesar da constante expressão gentil, ele certamente era alguém que ninguém gostaria de ter como inimigo.
- Nego-preto, tu sabes onde fica a casa de Luiza Moreira? – perguntou Felipe. Os garotos viraram imediatamente para o homem. Ele pareceu um pouco desconcertado.
- Estrada das Araucárias, número 6. Porque?
- E onde fica isso?
- Na estrada que vai pro Rio Cututu você encontra uma placa que diz a direção. É longe para ir a pé. Estão pensando em xeretar? – perguntou Nego-preto.
Os meninos se entreolharam ansiosos.
- Talvez... – responderam eles.
Nego-preto riu.
- É, vocês podem tentar, mas acho muito difícil que consigam.
- Porque? – Cezar perguntou.
- Ah, japinha, muitas coisas. A casa é muito protegida, mas não falarei mais nada. Se não conseguirem, desistam, ok?
Eles balançaram a cabeça positivamente.
Mas por quê? Por que não conseguiriam?
Lá estavam os quatro, pedalando,
- Coitado desse cara... – murmurou Cezar.
Pedalaram mais alguns metros, e viraram para a esquerda assim que surgira a estrada. Três minutos pedalando, e houve uma bifurcação, com uma placa que indicava "ESTRADA DAS ARAUCÁRIAS - DIREITA".
Entraram e tiveram uma agradabilíssima surpresa. Realmente, havia apenas alguns sítios, ranchos. Tudo era muito limpo. Do lado esquerdo ficavam as propriedades. Do lado direito havia vários pinheiros. Em um largo bosque. A Estrada das Araucárias em si era muito clara, e larga. Parecia ser uma área nobre. Todos os lotes tinham mais de
Quando passaram pelo número três, viram uma mureta com uns dois metros e meio, com mais quase um metro de arames farpados por onde parecia correr uma altíssima voltagem. Os números quatro e cinco pareciam pertencer ao mesmo dono. Após quase cinco minutos pedalando encontraram um imenso portão de ferro com uma letra "M" no meio, que se dividia entre as duas folhas do portão. No alto havia um arco, também de ferro, com as inscrições "Família Mourão".
- Mourão não é o fazendeiro que exporta carne bovina? – perguntou Carlos.
- E eu lá vou saber? – resmungou Felipe, cansado de tanto pedalar. – Nem sabia que tinha exportador de carne em Coração do Sul.
Após muito pedalar, chegaram ao fim da fazenda da Família Mourão. Sentiram uma sensação estranha. Aonde terminava o muro da fazenda, pintado com cal, começava um outro. Um outro ainda mais alto. Com mais de quatro metros e meio. De tijolos. Sem reboque. Foram para o outro lado da larga Estrada das Araucárias, e viram que mesmo dentro da Fazenda Mourão, o muro tinha a mesma altura exagerada. Desceram da bicicleta, e olharam-se com uma sensação de enjôo.
Felipe deixou a bicicleta no chão e se aproximou da parede. Apesar do sol exagerado do veranico que passavam naquele dia, o muro era muito, muito gelado. As pontas dos dedos chegaram a grudar ligeiramente. Fernando se aproximou do muro e o tocou. Andou para o lado e tocou no muro da Fazenda Mourão. Estava quente, dilatado até, talvez.
- Isso é muito estranho... – murmurou Fernando. Ele coçou seus cachos, confuso.
- Esse deve ser o número 6, da Estrada das Araucárias... – disse Felipe, com uma expressão confusa, ainda com a mão no muro.
- Vamos tentar ir mais adiante? – perguntou Carlos.
Todos viraram para ele. Cezar o olhou intrigado.
"O que tu disse?", perguntou ele.
- Nada... – respondeu ele, estranhando a reação dos amigos. – Só que já que estamos aqui, pensei em...
Os três se olharam assustados.
- Está saindo vapor do boca dele... – disse Cezar. – Tem alguma coisa nesse lugar...
Carlos deixou a bicicleta no chão e se aproximou do muro. Tocou-o rapidamente.
- Nada disso faz sentido.
Todos soltavam vapores da boca e das narinas enquanto respiravam. Felipe voltou para sua bicicleta e olhou os amigos.
- Quero ir lá para frente! – exclamou ele.
Os outros três se olharam, reflexivos, e concordaram. Subiram nas bicicletas e prosseguiram. Quanto mais pedalavam, mais frio sentiam. O muro parecia não acabar. Pedalaram por cinco minutos.
- Devemos estar chegando no fim. O portão deve ficar na ponta! – gritou Fernando.
Continuaram a pedalar, e o muro continuava sem fim.Pedalaram mais cinco minutos até que brecaram abruptamente. Ficaram ofegantes por alguns instantes.
- Esse muro já deveria ter acabado. – reclamou Carlos, olhando intrigado. – Está maior que a propriedade dos Mourão.
Todos olhavam para o muro, sem entender. Continuaram a descer a ladeira, acompanhando a estrada, que era acompanhada pelo grande muro que, por inteiro, não tinha reboque. Algumas partes já tinham musgos. Ouviram barulho de água. O Rio Cututu. O muro não poderia passar do rio.
Chegaram até quase a quinze metros do rio, quando puderam ver a quina do muro. Eles largaram as bicicletas no chão e correram até a margem. Não havia árvores ali. E puderam ver a dimensão do muro. Deveria ter mais de meio quilômetro. Não fazia sentido, mas era assim. Olharam na margem do rio. Era fundo ali. Não havia vegetação perto do muro.
- Viagem perdida. Saco. – resmungou Cezar.
- Não acho! – exclamou Fernando, num tom irritadiço. Ele ser aproximou do muro, na direção da margem do rio e deu um tapa nele, e não tirou a mão. Olhou para trás. Para os amigos. – O que eles querem esconder? Sim. Há algo sendo escondido atrás desse muro.
Felipe olhou para Fernando com um olhar intrigado.
- São mais de quatro metros de altura. Não dá para simplesmente pularmos. Não é uma cerquinha de madeira.
- E se déssemos a volta? – sugeriu Carlos.
- Sim, e se não houver passagem alguma? Daremos a volta por sei lá quantos métorus, hectares, ou seu lá eu como isso mede.
- O suchizinho tem razão... – Felipe murmurou. – Temos que descobrir mais sobre essa casa, se é que ela realmente existe.
- Claro que ela existe... – Fernando falou, parecendo entediado. – Talvez o Nego-preto saiba dizer alguma coisa a mais.
- É o que vamos descobrir agora...
Levaram pouco mais de meia hora até que conseguissem voltar para o centro de Coração do Sul. Tão logo chegaram, correram para a delegacia.
- Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, mas que cecê é esse? – indagou Nego-preto vindo de encontro à eles. – Vai me dizer que foram atrás da casa?
Eles pareceram não ouvir. Foram direto até o bebedouro.
- Gostaram do muro?
Os garotos o olharam com uma expressão de tédio.
- Deveríamos? – perguntou Carlos.
- Ah, Pelé, mesmo se eu tivesse dito que havia um muro cercando a casa, vocês teriam ido atrás. Eu já tive a idade de vocês. Já fui idiota um dia. – zombou o delegado.
- E deixou de ser quando? No ínterim da nossa viagem perdida? – retrucou Carlos.
- Olha lá, tu não estás falando com sua mãe, fedelho! – engrossou o homem. Mas logo recomeçou a sorrir. – Eles construíram esse muro uns dois ou três anos depois que a velha morreu.
Nego-preto virou de costas para os garotos e caminhou até sua sala. Eles o seguiram. Ele sentou em sua poltrona, num lado da mesa. Carlos e Fernando se sentaram nas duas cadeiras de frente a ele, enquanto Felipe e Cezar ficaram em pé.
- Por que construíram aquele muro tão alto? – perguntou Fernando.
- Ah, é uma história sem grandes explanações. Eu era moleque na época. Algumas semanas depois que ela morreu, apareceram algumas pessoas mortas ao redor da casa. Não exatamente mortas. É como se elas perdessem todos os cinco sentidos. Aparentemente não sentiam dor, não enxergavam, não ouviam, não falavam, não se alimentavam. Nem sequer se mexiam. Apenas acordavam e dormiam. Eu vi um cara. Era realmente muito assustador. Quando a velha morreu, o corpo dela foi levado por um cara, um inglês que dizia ser responsável por ela. Parente ou amigo, sei lá. Era um cara muito rico. Muito elegante. Me arriscaria até a dizer bonito. Foram três, as pessoas que ficaram desorientadas na floresta.
- Mas aonde isso tudo se soma? – Carlos perguntou.
- Não era bem na floresta. Veja bem, nossa cidade é completamente cercada por florestas e bosques. Mas os casos foram todos na propriedade de Luiza Moreira. Todos foram alí perto. Esse homem, que devo ter o nome em algum lugar, ele veio de São Paulo uns dois anos depois da morte dela e pediu a permissão para o prefeito da época. Ele pagou a construção de um muro de mais de três metros em toda a circunferência. No alto desse muro ainda tem também um metro e meio de cerca eletrificada.
Os garotos ficaram em silêncio.
- Mas tu mentiste, então, quando me contaste que chegou perto da casa da bruxa? – perguntou Carlos, como se pensasse alto.
- Não.
- Como não? É impossível que tenha passado por esse muro.
- É impossível. Sabe, eu e uns amigos, numas férias, resolvemos acompanhar todo o muro. Perdemos quatro dias. Porque não havia espaço algum. Nenhuma passagem. Chegamos a arrumar uma desculpa para entrar na propriedade da família Mourão. Cavalgamos por todo o contorno do muro. Nada.
Felipe comprimiu as sobrancelhas.
- Então como tu chegastes na casa dela?
- Aí é que chegamos na parte mais interessante da história. Um ano depois, resolvemos aproveitar nossas férias de uma forma não tão diferente. Resolvemos explorar as trilhas de toda a região.
Nego-preto pega uma caneca na mesa e a leva a boca, bebe algo, e olha para o teto, como se lembrasse de algo num passado muito distante.
- Existem cerca trezentos caminhos dentro das florestas de toda essa região. Trezentas contando com bifurcações. Durante um mês inteiro, íamos e voltávamos, trilha por trilha. A maioria começava num lugar, levava a uma paisagem, ou região aonde vivia um determinado tipo de animal, ou árvore, e terminava em algum outro lugar que também levava de volta a cidade. Após quinze dias, nós já havíamos conhecido cerca de 80% das trilhas. Porque todas as entradas eram na realidade, a saída de alguma outra.
- Começamos a limitar os lugares. Então descobrimos uma pequena trilha no meio de uma estrada. Uma trilha diferente de todas, diferente de tudo.
E ele parou. Olhou para os garotos, de um para o outro. Cezar se inquietou.
- E porventura, essa triria os levaria direto para a casa da bruxa...
- Isso mesmo, japa.
- Não faz sentido... E onde entra o muro no meio dessa história?
Nego-preto deu um sorriso misterioso.
- Da seguinte forma: não entra!
Os garotos se inclinaram para a frente, pareciam aflitos de curiosidade.
- Essa trilha era muito curta. Cerca de vinte minutos em passos rápidos. Foi terrível. Aquela sensação que temos por se aproximar do muro não é equiparável àquela que sentimos quando olhamos para a casa. – e parou de falar. Os meninos continuavam em silêncio. – Não nos atrevemos a mexer na casa. Sequer tentar entrar. Marcamos o caminho que fizemos, e resolvemos explorar a propriedade. Foi na hora de sair que ficamos assustados. Não havia muro algum, além do muro da fazenda Mourão. Contornamos o muro e saímos na Estrada das Araucárias. Passamos por onde existe um muro, mas naquele momento, ele não estava alí. Resolvemos retroceder do caminho da estrada, e passar pela fazenda vizinha. Entramos. Lá estava, novamente, o muro que ocultava a propriedade de Luiza Moreira. Nunca revelamos isso a ninguém. Nós entendemos que a casa deveria ser simplesmente protegida. Está lá por alguma razão, esperando alguma coisa acontecer, ou alguma pessoa certa encontrar.
- Só por curiosidade... – murmurou Felipe – Que estrada era essa?
Nego-preto olhou desconfiado, mas sorriu.
- Era a famosa vinte e seis, doze. Ou dois mil, seiscentos e doze. A única trilha em toda a estrada, do lado do mato e...
Eles se entreolharam e se levantaram.
- Nós vamos lá! – exclamou Felipe.
Saíram correndo. Nego-preto levou sua caneca na boca outra vez. Bebeu, o que quer que tivesse alí, e a colocou novamente na mesa. Olhou para as sombras deles saindo com uma expressão de tédio.
- E aí a minha mãe me pergunta por que não quero ter filhos...
Corriam até suas bicicletas, quando Rosinha se aproximou deles, em cima de uma cecisinha rosa.
- Aonde pensam que vão? – indagou ela.
- Não é da sua conta! – respondeu Carlos.
- Se não disser eu vou seguir... – ela disse, mexendo em uma trancinha.
- É coisa de menino. – Cezar respondeu.
- Isso não responde nada.
- Rosinha, só não queremos que tu estejas junto.
- Hum... Vocês vão tomar banho no rio? Pelados?
- É! – exclamou Cezar. – Por isso que tu não podes ir, Rosa. Vamos tomar banho no rio, pelados.
- Isso não seria surpresa pra mim, já os vi tomando banho no rio, peladinhos, várias vezes!
Houve uma pausa.
Os garotos se olharam completamente horrorizados, até Carlos, que era bem preto, enrubescera. Rosa também corou, e tentou consertar.
- Ora, vamos lá, também não era grande coisa. E na água gelada eles ficam... Bem...
O silêncio continuou. Mas agora era uma expressão de ofensa que surgira no rosto deles.
- Falando sério, aonde estão indo?
Eles se entreolharam. Fernando respondeu.
- Na casa da bruxa: Luiza Moreira. Se quiseres vir então pare de encher o saco.
Ela deu uma gargalhada.
- Só isso? E fizeram todo esse mistério. Vamos, então?
Nenhum deles pareceu gostar muito do intrometimento de Rosinha, por outro lado, começaram a pedalar.
Cinco minutos pedalando e logo estavam na estrada 2612, que cortava Coração do Sul. De um lado havia um alto canavial. Do outro, uma mata desgrenhada. Pedalaram por uns 10 ou 15 minutos. O sol parecia muito quente, e cansaram-se rapidamente. Então Carlos parou abruptamente, deu um salto e gritou.
- Aqui, essa é a trilha para a casa da bruxa.
Entraram na trilha com as bicicletas, e as apoiaram em árvores.
A trilha era cheia de curvas, cheia de árvores e mato, além de muitas teias de aranha, o que os obrigava a abaixar a cabeça por todo o tempo. Era estreita, muito úmida e escura.
O que era uma mata desgrenhada, agora era um bosque extremamente escuro. A trilha se alargara... Muitas flores surgiram, muitas sombras, muito silêncio. Apenas o farfalhar de folhas secas pisoteadas, aves gorjeando em cima das árvores. Mas ainda assim havia silêncio, muito silêncio. A floresta parecia viver a anos na mais absoluta meditação. Ela conseguia sugar a alegria de qualquer um que se atrevesse a caminhar por ela. Não que deveria haver alguma magia alí. Mas o silêncio, a escuridão, o frio... Ah, aquele frio. Um frio úmido e infeliz. Andaram mais um pouco. Lá adiante havia uma casa.




